Vida Monástica Beneditina

1 - Quem é o monge?

O monge é aquele que busca ouvir a voz de Deus na solidão para depois comunicar esta mesma presença de Deus aos outros, é aquele que escuta a voz do Mestre, como diz a Regra de São Bento: "Escuta, filho, os preceitos do Mestre, e inclina o ouvido do teu coração; recebe de boa vontade e executa eficazmente o conselho de um bom pai, para que voltes, pelo labor da obediência, àquele de quem te afastaste pela desídia da desobediência" (RB Prólogo). Ser monge não é ser isolado em si mesmo, mas é buscar a solidão para comunicar –se com Deus e comunicar este encontro com Deus aos outros.

 

2 - Tipos de monge

Geralmente, quando as pessoas nos perguntam se somos monges elas costumam  associar o ser monge á outros tipos de monacato, presentes em outras religiões, como o Budismo  o Hinduísmo  ou mesmo as manifestações monásticas descritas nos famosos filmes de artes marciais, os famosos monges “Shaolin” de origem chinesa, que foram os propagadores do Kung-Fu, tal como nos filmes conhecidos, mas o monaquismo que nós professamos é o monaquismo cristão, aquele que busca conhecer a Cristo e faz da vivência cristã o seu centro.

Assim como os outros monges conhecidos nós temos também regras, hábitos, nos exercitamos, é um modo de vida, mas um modo bem distinto, enquanto eles buscam a iluminação nós buscamos imitar uma pessoa: O Cristo Jesus, que nos dá a sua Palavra, portanto o nosso modo de vida é bem diferente do monaquismo japonês, chinês e hindu em geral.

Uma das características do monge beneditino que São Bento ao estabelecer os tipos de monges destaca, são aqueles que vivem em comunidade, os assim chamados cenobitas, como ele mesmo chama o poderosíssimo gênero dos cenobitas, porque ele entende que a solidão que o monge aspira deve ser compartilhada, enfim, está chamada a voltar-se para o outro. O que não significa que São Bento ignore a vida eremítica, como é o caso da Ordem Cartuxa ou mesmo dos Camaldulenses, que procuram conciliar vida comunitária com a vida eremítica.

 

3 – Em que consiste a vida do monge beneditino?

A vida do monge beneditino se assenta sobre dois pilares: oração e trabalho, isto é, ser monge em si é buscar a Deus na contemplação e na ação, o monge beneditino se realiza consigo mesmo e com os outros nas diversas atividades que ele desempenha no mosteiro, seja rezando na capela, cuidando da horta, conversando com os irmãos no recreio, entre outras coisas.

A nossa vocação, é ser presença orante, “na Igreja e pela Igreja” equilibrando vida de oração juntamente com os inúmeros trabalhos que o mosteiro realiza para o sustento da Comunidade e para edificação dos irmãos, por isso, ao falar de vocação beneditina devemos ter em mente esta entrega cotidiana daquele que se consagra no mosteiro beneditino a busca de Deus cada dia de sua vida. Isto não significa que não existam outros “dons”, como aqueles que se dedicam ao estudo e à investigação, mais utilizamos estes dons também para edificação da comunidade e das pessoas que estão ao nosso redor, em prol daqueles que nos procuram e a nossa missão está baseada em ser presença de Deus para as pessoas.

 

4 - O monge e a vocação sacerdotal:

 A vocação beneditina não comporta necessariamente o ministério sacerdotal, em si o ministério sacerdotal é um serviço  ao povo de Deus sendo que a vocação beneditina é mais ampla que o ministério sacerdotal, tanto é assim que nem todos serão sacerdotes, mas somente aqueles que forem escolhidos pela comunidade, conforme a necessidade, a desempenhar esse ofício para o bem comum  no nosso mosteiro especificamente nos dedicamos a vida mais contemplativa, não atuamos em paróquias, mas existem mosteiros que tem parte de sua atuação em paróquias e santuários.

No entanto, em nossa comunidade, todos são convidados a fazer o estudo da Filosofia e da Teologia para o conhecimento da Fé e para edificação do povo de Deus, mas isto não significa necessariamente que serão ordenados ao ministério sacerdotal pois assim diz a Regra de São Bento no Capítulo 62: “Se o Abade quiser pedir que alguém seja ordenado presbítero ou diácono para si escolha, dentre os seus quem seja digno de desempenhar o sacerdócio. Acautele-se o que tiver sido ordenado contra o orgulho da soberba e não presuma fazer senão o que for mandado pelo Abade, sabendo que deverá submeter-se muito mais a disciplina regular. E não se esqueça, por causa do sacerdócio, da obediência e da disciplina da Regra, mas progrida sempre mais para Deus, atente sempre para o lugar em que entrou no Mosteiro, exceto no ofício do altar mesmo que, pelo mérito da vida o quiserem promover a escolha da comunidade e a vontade do Abade”.

 

5 -Pequeno resumo histórico sobre a Regra de São Bento:

Primeiramente cabe perguntar-se o que é uma Regra, que por definição é um conjunto de normas que buscam ordenar o modo de vida de uma determinada sociedade, uma instituição ou um grupo de pessoas. A Regra de São Bento mais do que isso, ela tenta dar uma direção à nossa maneira de viver que deve estar orientada para o ideal do Evangelho. São Bento se refere a ela: “Tu, pois, quem quer que sejas, que te apressas para a pátria celeste, realiza com o auxílio de Cristo esta mínima Regra de iniciação aqui escrita e, então, por fim, chegarás, com a proteção de Deus, aos maiores cumes da doutrina e das virtudes de que falamos acima”.(RB Cap. 73).

A Regra é composta de 73 capítulos, ela engloba desde um convite inicial à escuta dos preceitos do Mestre, passando pela descrição de como deve funcionar o mosteiro, na oração e no trabalho cotidiano, a recepção dos irmãos, pelo ordenamento da liturgia até a Ordem da Comunidade. Falar sobre a Regra de São Bento não é falar de um tratado espiritual tal como fizeram os grandes autores da Igreja, mas expressa de viver o Batismo de uma maneira mais radical, de homens que buscam viver para Deus. São Bento não se preocupou tanto com Teologia, mas, quis viver simplesmente o ideal que Deus o inspirou a levar adiante.

É importante dizer aqui que outras expressões monásticas anteriores já existiam no tempo de São Bento, todas elas se preocuparam igualmente em viver o Evangelho de Jesus Cristo. Entre as muitas estão os Padres do Deserto, A Regra de São Basílio, a de São Pacômio, no Egito, que antecederam a própria Regra de São Bento. Podemos dizer que a Regra bebeu destas fontes.

A Regra de São Bento não foi escrita de uma só vez, mas, foi o resultado de uma larga experiência vivida dentro dos mosteiros, além disso ela procurou condensar textos, tradições, dentro da riqueza que a própria Igreja possui.

 

 

                                                  

 

 

 

 

 

Por: Dom José Nogueira, OSB

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